No clássico Karatê Kid, o mestre de Daniel lhe diz que seu karatê estava dentro dele, e que ele precisava deixá-lo sair. Hoje entendo essa afirmação. Deixar o karatê sair significa liberar nossa energia vital, fazendo-a explodir! Isso traz saúde e vigor para o corpo, forçando cada célula a trabalhar pela continuação e fortalecimento da vida. O karatê é mais que um simples exercício. É um reator nuclear!
sábado, 4 de abril de 2020
KATA: BATALHA CONTRA INIMIGOS REAIS E IMAGINÁRIOS
Capítulo do Livro Karatê a Arte de Transformar Vidas
Renato Frossard
Devido ao fato de o kata ser um dos fundamentos mais importantes do karate, dedicarei este capítulo exclusivamente à sua discussão, lançando um olhar em profundidade sobre este exercício, capaz de unir corpo, mente e espírito na busca de um só objetivo.
Os antigos mestres costumavam chamar o kata de “batalha imaginária”. De fato, apesar da beleza que pode ser produzida em sua execução, seus objetivos e segredos vão muito além da mera beleza visual. Com efeito, durante a execução destes exercícios, o praticante deve imaginar-se em uma luta contra diversos adversários, que ele destrói ou tira de combate ao executar as técnicas de ataque e defesa que formam o kata. Estes são seu inimigos imaginários. No entanto, eu irei além do que simplesmente classificar o kata como uma batalha imaginária, uma vez que existem inimigos bem reias que devem ser enfrentados durante sua prática. Ao executar um kata com verdadeira dedicação, o karateca trava uma batalha contra seus piores inimigos, e só sairá vencedor, se conseguir derrotá-los. Você pode estar se perguntando a quais inimigos eu estou me referindo, uma vez que o kata é um exercício que se pratica sozinho, isto é, sem adversários reais. Ao falar de inimigos, refiro-me aos inimigos interiores, aqueles que tentam fazer com que o atleta fracasse em seu objetivo de executar um kata perfeito. Por exemplo: desânimo, cansaço, medo, insegurança, raiva, culpa, incerteza, fome, sede, dor, paixões, preocupações, orgulho, tensão, nervosismo, vaidade, distração, etc. Todos estes inimigos trabalham contra o karateca desde o momento em que inicia a execução do kata até o momento final. E para vencê-los, o praticante precisa contar com o máximo de sua concentração e determinação.
Para ser considerado bom, um kata deve apresentar diversos elementos: Kime, Beleza, Agilidade, Leveza, Zanchin, Shakugan, Técnica, Precisão, etc. Em outras palavras, para quem assiste a execução, o kata deve parecer algo extremamente fácil de fazer, e ao mesmo tempo cheio de beleza e plasticidade. É mais ou menos como assistir a uma apresentação de um artista patinador. Todos sabem que seus movimentos são extremamente difíceis, e que pra atingir um certo grau de perfeição foram necessários anos de treino. Mas vendo-o executar sua seqüência com tamanha leveza e exatidão, girando solto no ar feito um pássaro e aterrissando suavemente após sua pirueta, temos a impressão de que conseguiríamos fazer o mesmo com semelhante facilidade. Porém, nossa razão nos lembra que somos incapazes de tal proeza, a menos que dedicássemos uma vida inteira à prática daquela arte. Semelhantemente, para executar um kata com beleza e eficiência, dando a impressão de que o faz com extrema facilidade, o karateca pode levar anos e anos praticando. Ainda assim, os inimigos interiores do atleta continuarão a ameaçá-lo durante toda a sua vida. A medida em que o praticante consegue controlar e manter estes inimigos em silêncio, determinam a qualidade da execução de seu kata.
Assim que inicia a execução do kata, o atleta enfrenta o desânimo, que procura fazer com que ele o faça de qualquer maneira, sem kime, sem concentração. O lutador então se esforça e se concentra, procurando executar cada movimento com o máximo de força e explosão. Mas logo vem a dor, e procura fazer com que o karateca relaxe e descuide das bases, elevando sua altura a fim de aliviar a sensação de desconforto. Se for fraco, o lutador terá perderá a batalha, pois se renderá à dor. Se for forte, procurará ignorar a dor e manterá as bases no nível em que iniciou a execução. De repente, o guerreiro percebe que está cercado de olhares admirados e curiosos e se envaidece. Surge o momento perfeito para que a vaidade o derrube de sua fortaleza, fazendo com que perca a concentração, o que afeta toda a execução do kata podendo, inclusive, fazer com que esqueça a seqüência dos movimentos e tenha que interromper o kata, perdendo assim a batalha. Mas sendo guerreiro experiente, o karateca expulsa de sua mente as vaidades e concentra-se novamente na sua luta. Esquece-se de todos em volta. Pensa somente em seu objetivo: vencer seus inimigos. E assim, o lutador vai vencendo um a um seus inimigos interiores até finalmente concluir o kata, voltando á posição original de humildade e, finalmente, ao estado de paz interior.
Pode parecer incrível que a simples execução de uma seqüência de movimentos encapsule tanto significado, mas é realmente isto que ocorre na prática do kata, pois esta vai muito além da mera execução de movimentos corporais técnicas de ataque e defesa. De fato, o kata é um verdadeiro arsenal de guerra contra o comodismo e o conformismo humano com tudo aquilo que é mais fácil e confortável. É a busca do aperfeiçoamento pessoal através do esforço constante para se alcançar o inalcançável. A busca de uma perfeição que continuamos buscando, mesmo sabendo-a impossível de conquistar. À medida que luta contra seus inimigos interiores, o karateca vai se fortalecendo. Vai se tornando menos suscetível aos seus ataques, que vão perdendo as forças, como quando nos tornamos imunes a certas doenças. De tanto lutar contra seus adversários interiores e derrotá-los, o lutador vai se imunizando contra suas investidas. Com o passar do tempo, passa a não sentir desânimo ao executar o kata. Já não sente mais dor e consegue manter as bases no nível apropriado de altura do início ao fim da seqüência. Seu nível de concentração aumenta consideravelmente, possibilitando a ele preocupar-se apenas com sua batalha e esquecer-se de seus problemas, temores, dúvidas, fraquezas, etc. Mas o guerreiro se manterá alerta, sabendo que seus inimigos estarão sempre ali, prontos pra atacar ao menor sinal de fraqueza, e ele sabe que deve estar preparado para derrotá-los novamente.
Em resumo, ao executar um kata, por mais simples que ele seja, não o faça como se estivesse simplesmente executando uma seqüência de movimentos. Primeiro, porque são técnicas de ataque e defesa, segundo porque cada técnica, para ser efetiva, necessita da participação de todos os seus músculos e mente trabalhando em conjunto. Lembre-se sempre que a seqüência que você está executando simula uma luta entre você e vários adversários. São adversários imaginários, que devem ser derrotados um a um à medida que você executa o kata. Além destes adversários imaginários, você tem adversários reais que estão dentro de você, dentro de sua mente! Você precisa derrotá-los, ou seu kata não terá valor algum. Você pode executar o kata sem kime para aprender a seqüência correta dos movimentos, mas tal execução serve somente para este objetivo. Não trará nenhum benefício para sua saúde ou para o fortalecimento de seus músculos. Não desenvolverá sua concentração, não te ajudará a controlar o medo da dor. Nunca faça o kata preocupado com quem está te assistindo, pois assim seu kata será prejudicado. Você perderá a concentração e não conseguirá uma execução próxima da perfeição. Procure fazer o kata apenas pra si mesmo. Faça o melhor que puder pra si mesmo. Seja honesto consigo mesmo, e quem te assistir ficará maravilhado com sua execução. Como diz a sabedoria: vencer a si mesmo é a maior das vitórias!
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